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Suspensão total: uma full para cada coisa |
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Os modelos mais usuais de sistemas de full suspension são o Cantilever, o Multilink e o sistema de Balança Traseira Unificada, também conhecida pela sigla URT (Unified Rear Triangle). Cada sistema tem suas particularidades, suas vantagens e, naturalmente, as suas desvantagens também. Antes de descrevermos o funcionamento dos três principais tipos de suspensão, é bom esclarecer alguns princípios básicos do funcionamento de uma bike full. - A durabilidade e suavidade do trabalho dos pivôs (ponto de articulação junto ao quadro da bike) é fundamental para o bom funcionamento de todo o sistema. O menor movimento no pivô vai chegar amplificado na roda traseira. O pivô deve ter um movimento o mais suave possível, sem atritos, para que o sistema trabalhe perfeitamente. As boas full suspension possuem rolamentos nos pontos de articulação. - A flexão sofrida na balança traseira de uma bike full suspension é o seu Calcanhar de Aquiles. Uma boa balança traseira deve ser flexível o bastante para não quebrar e nem estressar o quadro, mas sem gerar flexão exagerada, para se desperdice o mínimo possível da energia produzida pelo ciclista. - O outro Calcanhar de Aquiles das full suspension é o fenômeno conhecido como “Chain Reaction”, que nada mais é que a reação da suspensão ao aplicarmos força nos pedais. Às vezes a suspensão será comprimida em direção ao chão pelo “Chain Reaction” e, às vezes, a suspensão traseira vai ser estendida. Veremos com mais detalhes abaixo. - Outro fator importante no projeto de construção de uma full suspension é a distância que a balança traseira terá para se movimentar (o curso da suspensão, de fato). Alguns desenhos propiciam mais curso para a roda traseira, outros, menos. O paulista Klaus Poloni, construtor artesanal de quadros sob medida para bicicletas, dá suas dicas: “Quanto mais links no sistema, mais flexão lateral haverá na balança traseira, e, portanto, mais manutenção a ser feita”. “A qualidade do amortecedor influencia mais que as dimensões, a geometria e a colocação dos pivôs na bicicleta”. “Um bom amortecedor pode salvar um desenho medíocre de multilinks”. O USO Não há uma regra definida para o uso de cada sistema de full suspension, mas em linhas gerais, uma bike full suspension para o cross-country precisa de uma construção que seja leve e que provoque o mínimo possível de “chain reaction” que, em subidas, comuns no cross-country, provocam o “bobbing”, aquele efeito indesejável que acontece quando se aplica força nos pedais em trechos íngremes. Já uma bike específica para downhill (modalidade em que os pilotos descem montanhas íngremes e cheias de obstáculos) não precisa ser leve e, portanto, outro tipo de construção é viável. Uma bike de downhill precisa ser estável, resistente, durável e possuir um longo curso na traseira. Para o freeride (modalidade não competitiva, mas que exige bastante das bikes nos saltos) a bike deve ter quase as mesmas características de uma bike de DH, mas sem ser demasiadamente pesada, pois no freeride o biker também pedala em trechos às vezes difíceis e com subida. Quanto ao curso da suspensão e ao peso do quadro, podemos dividir a grosso modo as categorias em:
O desenho Cantilever, também conhecido como Monoshock (quem se lembra da Yamaha DT 180?), foi e ainda é utilizado na construção de quadros de motocicletas. A simplicidade é o maior trunfo desse sistema que utiliza um único pivô que permite a movimentação da balança traseira, que está conectada diretamente a um amortecedor. Sem links. A localização do pivô nesse tipo de suspensão é fundamental e influencia diretamente no seu comportamento. Em uma bike cujo pivô esteja situado em um ponto mais elevado que uma determinada coroa (qualquer uma delas), a força resultante da pedalada produzida pelo ciclista vai fazer com que a balança traseira seja estendida e force a roda traseira em direção ao solo. Esse efeito é positivo em escaladas em terreno com pedras soltas (já que a bike ganha mais tração), mas tem a desvantagem de “travar” quando a bike passa sobre obstáculos no chão. Ao passar sobre um obstáculo, pedra ou galho, por exemplo, a roda é empurrada em direção ao obstáculo, anulando parcialmente o efeito do amortecimento. Outra desvantagem é que, ao passar sobre obstáculos, o movimento da balança traseira puxa a corrente e provoca um tranco na pedalada. Esse efeito é mais notado em desenhos com pivôs mais elevados. Quando o pivô fica localizado abaixo da coroa, a suspensão é comprimida. Esse sistema ficou conhecido como “suspensão ativa”, já que ela reage bem melhor - mesmo aplicando-se força nos pedais - a obstáculos no solo. Por outro lado, a maciez do funcionamento desse desenho faz com que bastante energia produzida pelo ciclista seja desperdiçada pelo efeito “bobbing”, aquele movimento de sob-desce típico das full, já que o peso do ciclista ajuda também a comprimir a suspensão traseira. Outro efeito dessa localização de pivô é que, ao passar sobre obstáculos, a balança traseira se movimenta e produz uma folga momentânea na corrente, que atrapalha na pedalada. Bikes que utilizam o sistema: Cannondale Super V, Orange Patriot, Orange 222, Santa Cruz Heckler, Santa Cruz Bullit, Santa Cruz Super 8.
Alguns quadros têm várias furações para a fixação do amortecedor traseiro, que podem ser usados para regular o funcionamento do conjunto. Com a utilização de múltiplos links, o amortecedor pode ser instalado em um ponto mais conveniente na bike, que pode ser sob o tubo horizontal (Rocky Mountain Element); na parte inferior frontal do tubo de selim, como nas Turner XCE, entre outros pontos. Quando o eixo traseiro da bike está localizado abaixo do pivô principal, a balança traseira vai se movimentar para trás em relação ao quadro da bike, enquanto que o quadro da bike se move para cima. Entretanto, esse desenho é complexo e exige vários pontos de articulação, que elevam o peso final do conjunto. Multilinks são largamente utilizados no freeride e no downhill. Bikes que utilizam o sistema: Specialized FSR, Diamondback X-Link, Uzzi SL e AMP B5.
Entretanto, quando o ciclista pedala em pé, em uma subida por exemplo, o amortecimento é anulado e a bike torna-se na realidade uma bicicleta de traseira rígida! Bikes que utilizam o sistema: Trek e Gary Fischer modelos Y, Klein Mantra, GT iDrive, Maverick, Ibis Sweet Spot.
O amortecedor é parte integrante e ativa do quadro. O sistema possui três pivôs: um na balança traseira, próximo ao movimento central, outro próximo à gancheira traseira (Horst Link) ou no seat stay, e outro pivô onde o amortecedor se junta ao quadro. A Santa Cruz Superlight (veja matéria Meninas Superpoderosas) utiliza um sistema inspirado no Mac-Strut. A diferença está no pivô que fica localizado no seat stay, em vez de se localizar no chain stay. A vantagem desse sistema está na sua simplicidade e leveza, tanto que a SuperLight faz enorme sucesso em provas de cross-country. Entretanto, o chain stay precisa ser razoavelmente longo, o que o torna vulnerável a flexões indesejadas. Outra desvantagem é o curso limitado da balança, que fica entre 8-9 cm de curso. Bikes que utilizam o sistema: Titus Racer X, AMP B4, Jamis Dakar, Fischer Sugar, K2 Attack.
A desvantagem desse sistema é que a cada pedalada do ciclista gera uma força resultante que comprime o amortecedor, exceto quando o ciclista utiliza uma combinação de marchas em que a coroa e a catraca sejam mais ou menos do mesmo tamanho ou quando a coroa é menor que a catraca (nesse último caso, a suspensão na realidade vai estender e ser empurrada de encontro ao solo). O maior atrativo desse sistema é a ausência de trancos na corrente ao se passar sobre obstáculos. Bikes que utilizam o sistema: Rotec e Jamis El Diablo
Para aqueles que acreditam que, quanto mais simples, melhor funciona, existem as bicicletas conhecidas como Soft Tail, que têm um amortecedor ligado diretamente no seat stay. O modelo Pro ST da KHS, e a Trek STP 400, não têm link e muito menos pivôs. O próprio stay enverga e acompanha o movimento da roda traseira. Para tranqüilizar os consumidores, a KHS oferece garantia eterna de substituição do quadro, em caso de quebra por estresse.
A grande vantagem de uma soft tail (também chamadas de dual suspension) é a sua praticidade, baixa manutenção, confiabilidade e preço acessível. Bikes que utilizam o sistema: Airborne Paka-Wallup, Listespeed Unicoil, KHS Pro ST, Trek STP 400, Cannondale Scalpel
BRAIN
O sistema — batizado de Brain pela Specialized — fica posicionado na parte traseira da bike, bem próximo do eixo traseiro (Brain, em inglês significa cérebro). Ele possui uma válvula que fica fechada pela ação de uma mola, deixando o amortecedor rígido, travado. Assim que a bike alcança um obstáculo, o impacto gerado aciona automaticamente a válvula de inércia que libera o funcionamento do amortecedor, que absorve o impacto. Tão logo a bike alcance um trecho suave - sem impactos - a mola retorna e a válvula se fecha e o amortecedor endurece novamente. No caso do obstáculo ser negativo — um buraco ou valeta, por exemplo — o sistema permite que o amortecedor atue pela ação da gravidade e amorteça o impacto do buraco. Ao retornar à posição original, a válvula é novamente fechada. A sensibilidade da válvula de inércia permite que o amortecedor atue a partir de impactos de 1G. A patente do Brain pertence à Specialized, que desenvolveu o sistema em parceria com a Fox Racing. VEJA O FUNCIONAMENTO ANIMADO DO SISTEMA GENIUS
O pistão do amortecedor funciona voltado para baixo. Com a bike parada ele fica recolhido dentro da câmara. Quando a bike passa sobre um obstáculo (uma lombada, por exemplo) o movimento da roda traseira é transmitido, por meio de quatro links, ao pistão do amortecedor, que absorve o impacto ao ter seu êmbolo puxado para fora da câmara. É importante que o ciclista calibre com exatidão a pressão de ambas as câmaras [negativa e positiva], de acordo com o seu peso para que o sistema funcione corretamente. No caso da roda traseira atingir um obstáculo abrupto, um dispositivo interno se encarrega de liberar uma válvula de escape, permitindo assim o amortecimento e evitando danos ao amortecedor traseiro. Por meio de uma pequena alavanca no guidão o ciclista é capaz de selecionar rapidamente — mesmo com a bike em movimento — três formas de utilização da suspensão traseira. A idéia da ScottUSA foi a de produzir uma bike que tivesse três comportamentos distintos, assim, na posição Locked, a bike se comporta como uma hard tail, na posição Traction Control a suspensão trabalha com curso reduzido em 60% e amortece sem perder tração nas subidas mais difíceis, segundo a empresa. Já em Full Travel, a suspensão, com 125 mm de curso, permite amortecimento o suficiente para abusar dos dowhills. CONCLUSÃO Antes de escolher e adquirir um modelo full suspension o ciclista deve ponderar bem as vantagens e desvantagens de cada construção, avaliar o tipo de utilização que vai fazer da bike e, por fim, optar pelo sistema que melhor cabe no seu orçamento. Damos também uma dica preciosa: “Todo avanço tecnológico deve ser observado sob dois pontos de vista: a ótica do fabricante e a do consumidor. O fabricante usará de todos artifícios e argumentos de marketing possíveis para convencer o consumidor leigo de que seu produto é o melhor, o mais leve, o mais eficiente etc etc. e, nem sempre, a publicidade é verdadeira. O que muitos fabricantes desejam é vender para os consumidores as reduções de custo que tiveram no processo de fabricação”. |